Quebra-cabeça

A vida é esse longo tabuleiro, ansioso para ser passeado. Um livro de colorir repleto de desenhos em branco, aos quais buscamos, o tempo todo e um pouco mais, a melhor maneira de pintar. Feito jogo de Lego onde muito se constrói e desconstrói em minutos, tipo caça-palavras cheio de enigmas, cujo todos os dias de uma existência é pouco demais para decifrar. Um extenso quebra-cabeça, essa é a vida.

Somos feitos de peças. Pedaços de nós mesmos que se montam, moldam, juntam, separam, combinam e divergem, quase que no mesmo instante. É como as certezas absolutas de ontem, que hoje já não existem mais. Como o discordar que insiste, sempre, em estar entre o sentir e o pensar. Somos triângulos que horas buscam seu par, horas tentam se encaixar em quadradinhos. Talvez caibam, talvez não. Vivemos em uma procura constante pelo lado certo para descobrir que, algumas vezes, o avesso é que fica melhor em nós. Há aquelas pecinhas que com o passar do tempo se tornam frouxas em seus espaços, outras que neles fazem morada fixa. Como os laços que até a rotina fortalece e os sentimentos que nunca morrem.

Talvez sejamos, agora, frases soltas em um texto qualquer. O que não nos impede de mais tarde ser, quem sabe, versos que se encontram na profundidade de um poema. Talvez sejamos páginas destacadas de um velho livro perdido por aí, ainda que tenhamos sido, outrora, o espiral que unia todas elas. É como o vazio de hoje por não saber para onde ir, seguido do sorriso de amanhã que diz “tudo bem, eu estou a caminho”.

Sim, essa é a vida. Mudança incessante, transformação a toda velocidade. É onda que não dá trégua em dia de mar agitado, castelo de areia que se ergue em alguns segundos e em menos ainda se desmancha. É massa de modelar nas mãos de criança que faz boneco virar casa. A vida é esse quebra-cabeça composto por uma infinidade de peças as quais somos desafiados a montar, desmontar e remontar, todos os dias. E essa é a melhor parte.

Esse Tal de Janeiro

É montanha ruça, esse mês chamado Janeiro. É tempo em que as esperanças se renovam. Tempo de estabelecer metas, listar planos, desejar mudanças e, principalmente, acreditar em todas elas. É frio na barriga pelo que está por vir, alívio para uns e talvez uma certa melancolia para outros, pelo que ficou. É época de fechar algumas portas, abrir outras. É como organizar uma gaveta e ter que decidir o que continua nela, e o que já não cabe mais. Como se jogar em uma dança sem conhecer o ritmo, apenas com a disposição para aprender. É reflexão, emoção, surpresa. Parece irradiar boas energias, esse tal de Janeiro.

Particularmente, eu gosto dele. É mês de datas especiais. De comemorar o dia em que conheci algumas pessoas e me aproximei de outras. Ele foi palco de bons hábitos que criei, momentos e experiências marcantes que já vivi. É verão. Um convite para sol, banho de chuva aos fins de tarde, cochilos na rede, piscina e sorvete. Gosto porque ele me faz pensar, também. Retornar aos Janeiros anteriores e fazer uma retrospectiva de mim mesma. De tudo o que já fui e tudo o que imaginei querer ser, em cada um deles. Houve aquele em que eu me sentia transbordar de felicidade, o futuro parecia tão certo. Ironicamente, tantas incertezas restaram dele e me trouxeram um outro Janeiro cheio de conflitos internos, em que eu apenas esperava encontrar partes de mim que se perderam por aí. Encontrei. Houve o Janeiro em que eu tinha um universo novo nas mãos e a plena convicção de que ele era tudo o que eu queria para sempre. Não era. Quando olho para este, tudo que vejo é alguém que sabia tão pouco sobre si mesma e sobre o mundo. Lembro ainda daquele em que eu me vi em paz, confiante e sonhadora. Feita de expectativas, vontades, pronta para descobrir mais, fazer mais, ser mais. Este é o que mais se parece com meu Janeiro atual.

Tem sabor de saudade e cheiro de sonho, Janeiro. Ele nos envolve, instiga, estimula. É um ponto de partida, e pontos de partidas tendem a nos fazer acreditar que as coisas vão acontecer. Que tudo vai dar certo. E é importante acreditar, mesmo. Porque não vale a pena lutar e esperar por algo em que não se acredita. Mas Janeiro significa um ano novo, não o início de um ano mágico. Não depende dele. Depende de nós. É função de cada um buscar seu melhor. Correr até seus objetivos, construir suas próprias histórias. Permitir-se olhar para seus outros Janeiros e se perguntar quantas mudanças você esperou em cada um deles, e quantas realmente aconteceram. Quantas você ao menos tentou fazer acontecer. Talvez Janeiro seja o empurrão de que todo mundo precisa às vezes. Talvez ele seja nossa injeção de ânimo. Mas é só isso. Os recomeços e as novidades virão, sim, mas é preciso fazer mais do que esperar. É preciso procurar. Tentar. Arriscar. Mergulhar sem ter medo da profundidade. E saber que a gente não pode conquistar tudo em um mês. As realizações não vem embrulhadas em um pacote de presente, todas de uma vez. E tudo bem. Janeiro não é único, nós temos mais onze meses. Podemos fazer de cada um deles inesquecível. Importante. Uma nova chance para pensar, melhorar, mudar o que quer que seja. Podemos acumular boas memórias para admirar, em todos os outros Janeiros.

Sobre Deixar o Passado Para Trás

“É hora de passar a borracha.” “Quem vive de passado, é museu.” “Você precisa deixar isso pra lá.” “Já foi, esquece.” Expressões como estas e outras semelhantes que a gente escuta todos os dias por aí. E a gente diz, também. Diz quando não encontra nada melhor para dizer, diz quando acredita que é o que o outro precisa ouvir. Será? Na teoria parece bastante simples. É tentadora a ideia de esquecer tudo aquilo que nos aflige de alguma forma. Mas a gente não esquece, não. A gente finge. Foge. Tranca o que passou para fora e tenta se convencer de que a chave jamais escapará de nossas mãos. Repetimos para os outros e para nós mesmos que “tudo bem, eu já nem lembro mais”. Mas a gente lembra, sim. E sabe, tudo bem lembrar.

O passado é nossa maior bagagem e não dá para simplesmente se desfazer dela. Colocá-la no bagageiro e se permitir viver a vida sem que ela atrapalhe, isso sim. É essencial. Jogar tudo pela janela como se nada ali importasse, não. Porque importa. Importa muito. São bagagens que carregam sonhos, planos, medos, desejos, dores, promessas não cumpridas. Guardam esperanças, saudades, histórias vividas e outras que talvez nem tenha dado tempo de viver. Há aqueles itens mais pesados, exaustivos, que insistem em incomodar. Há também os mais leves. Os que possuem valor inestimável, que a gente faz de tudo para não quebrar ou perder pelo caminho. Comportam uma mescla de cacos de vidro e camadas de algodão doce. Cabe tanto em uma bagagem, e cada um sabe o tamanho da sua. É a ela que devemos tudo o que somos, tudo o que deixamos de ser e o que ainda seremos. O que queremos ser. Não dá para desconhecer pessoas, apagar instantes vividos ou palavras ditas. A vida não é um diário antigo do qual podemos extrair páginas tristes para não ter que ler novamente. O passado é feito uma música: talvez fique de lado, com o tempo. Mas não deixa de existir.

É verdade que o passado não se muda. Mas também não se esquece. A gente supera. Muda a rota. Entende que viver é caminhar por várias direções, atravessar curvas íngremes, sem deixar que as memórias, meras companhias, nos faça estacionar. A gente aprende a lidar com o passado. Mas não esquece. Ele apenas fica ali. É uma parte de nós que não se arranca. Nem é preciso. Porque vale muito a pena encará-lo. Olhar para ele e perceber o quanto somos capazes de nos redescobrir, reinventar, ser melhor. O quanto ele nos ensina, nos mostra e nos faz mais fortes. Basta que saibamos que o passado é apenas a bagagem. E bagagens são necessárias, sim. Mas não devem interferir na viagem deliciosa que é nosso presente, ou nos afastar das surpresas que nos reservam nossos próximos destinos. O futuro.

Essa Coisa Chamada Saudade

Ah, a saudade. Essa que jamais pede licença para entrar e não costuma ter pressa alguma em partir. Vai chegando sorrateira, tornando difícil saber ao certo quando ou como ela nasceu. A gente só sabe que ela está ali. Não adianta perguntar quando pretende ir embora, tentar bater a porta na cara dela ou pedir simplesmente que saia. Coisinha teimosa essa tal de saudade, viu? Vez ou outra tentamos ignorá-la, fingir que não existe. E sabe, a curto prazo isso até que funciona sem grandes falhas. Guardá-la em um cantinho escondido dentro de nós, na esperança de que não a vejamos mais. Encontrar uma distração para ela, ou apenas repetir constantemente que ela não está ali, talvez faça isso parecer verdade durante um tempo. Porque é fácil enganar a saudade por horas, dias, meses. Difícil mesmo é enganar a nós mesmos.

Não acho que seja ela um sentimento indefinível. Apenas singular demais para que possa ser descrita com exatidão. Tal como o amor, vejo a saudade como algo único. A verdadeira saudade não é minha, nem sua. É de cada um. Não importa quantas vezes usamos essa mesma palavrinha no quotidiano, o significado dela sempre irá divergir.

Minhas saudades, por exemplo, possuem nomes próprios. Vários. Mostram-se em uma porção de formas, tamanhos. Há aquelas que pesam no peito, sim. Que às vezes vem acompanhadas de lágrimas e nostalgia. Mas há também aquelas mais doces, gostosas de sentir. Como uma lembrança boa que inesperadamente faz a gente sorrir. Minha saudade é cheia de calor. Calor dos abraços que já tive e sei que não mais terei, dos que talvez não tenha agora mas intimamente sei que necessito ter para toda a vida, e até daqueles que ainda não tive, aqueles pelos quais eu espero ansiosamente. Porque sim, às vezes a saudade também é isso. A ânsia pelo desejado porém desconhecido. Ela tem o som de uma risada ou da combinação de várias delas. O timbre de uma voz inesquecível, uma música tão marcante quanto deixada de lado. Tem o sabor da minha comida favorita da infância, o cheiro de um lugar, ou um alguém.

Minha saudade também é um emaranhado de palavras. Frases. Declarações. Cenas registradas em livros, filmes, ou só aqui dentro de mim. É uma montanha de planos e sonhos por algum motivo desfeitos, assim como daqueles que eu faço e refaço dia a dia, sem me cansar, sem desistir. Ela tem a textura de um brinquedo há tempos perdido, dos presentes mais esperados, das mãos que um dia segurei e das que não soltarei. Nunca.

É uma saudade palpável, não há como fugir dela. De nenhuma delas. E talvez eu não queira, mesmo. Porque talvez eu tenha aprendido que apesar de quase sempre incômoda ou dolorida, essa coisa chamada saudade faz parte de mim. De tudo o que já fui, do que sou e do que ainda quero ser. Se hoje é saudade, é porque em algum instante já foi felicidade. Pode ser que ainda seja, que jamais volte a ser ou que venha de novo muito maior. Mas tudo o que é saudade, certamente já foi o suficiente para compor algum pedacinho de mim. E talvez por isso seja tão difícil escapar dela.

Feito Primavera

Fascinante essa magia de Primavera, não é? Essa que envolve-nos sutilmente, devagar, quase como se não estivesse ali. Faz do universo repleto de cores, nos traz, através do ar carregado com o aroma suave das flores, uma leveza incontestável. Remete paz, sossego. Tem seu jeito todo especial de nos despertar uma alegria natural. Eu sei que, por distração, falta de tempo ou outro motivo qualquer, às vezes deixamos ela de lado. Não paramos para admirá-la, se quer prestamos atenção nos encantos a nossa volta. Mas eles estão lá, basta observar. Falo, sobretudo, dessa Primavera fora de época. Sim, por que não? Essa que não precisa se encaixar em nenhum calendário para existir. Vive em torno de nós diariamente, e ainda assim é possível que não percebamos. Uma Primavera onde as flores são como as pessoas, aquelas que enfeitam cada pedacinho da nossa vida. E os jardins, moradia de cada uma delas, estão aqui, bem dentro de nós.

É um jardim como qualquer outro. Requer cuidado, atenção, parte do nosso tempo. Merece ser regado frequentemente, com uma boa dose de bons e verdadeiros sentimentos. Para que sobreviva, precisamos cultivá-lo. Não cobra estadia, mas certamente recebe daqueles que ali habitam tudo de mais belo que há para receber. Enfrenta noites tempestuosas, sim. Mas na manhã seguinte está sempre disposto a comemorar o nascer do sol outra vez. Tem suas horas em festa, e seus momentos de quietude, silêncio. Um lugar capaz de nos acolher, confortar, guardar nossos bens mais preciosos, os melhores frutos desse jardim. Frutos esses que, para mim, são vocês.

Vocês que construíram ou ainda constroem um espaço aqui, ocupando-o sem deixar fresta. Que carregam, mesmo sem perceber, luz no sorriso e nas palavras doces. Me proporcionam descanso, calmaria. São como um refúgio. Transformam meros detalhes em um mundo cheio de cor, meu mundo. Tem som de felicidade, cheiro de puro amor. Talvez não sejam perfeitos, e não precisam ser. São parte de mim, e isso basta. Vocês que mostram que vale a pena olhar, sempre. Ainda que nos falte tempo, que as distrações diárias nos impeçam, ou que tenhamos medo de não enxergar. Vale a pena olhar, porque às vezes isso é tudo o que nos falta para um dia melhor. Para que haja um sorriso maior. Enfim, são vocês que compõe cada cantinho desse meu jardim, vocês que eu levo comigo em todas as estações. São proteção no Inverno, alegria completa no Verão, segurança no Outono. E fazem da minha vida uma Primavera constante.

Universo Literário

Tenho em mim uma infinita paixão pelas palavras. Sim, as palavras. Esse pequeno amontoado de letras que, quando combinado com diversos outros, sendo bem utilizados, de modo que possam ser também bem interpretados, são capazes de possuir um imenso papel na vida de seus leitores. Palavras que compõe pequenos versos, frases, parágrafos, páginas e páginas que para alguém eternamente “dependente literário”, como eu, são feitas de um material muito mais sólido do que aquele que se pode ver. As letras, talvez, se tornem ilegíveis com o tempo. O papel rasga, amassa, queima. E mesmo os arquivos digitais podem se perder por aí. As sensações que uma boa história parece ter o dom de nos despertar, entretanto, não ficam para trás. Nunca. São elas que fazem com que um texto saia de onde quer que esteja escrito, e venha direto para dentro de nós. Mais do que tamanho, vocabulário ou caligrafia, são essas variadas sensações as responsáveis pela beleza de uma história. Porque, afinal, acredito que o belo esteja bem aqui. Não naquilo que se pode ver ou tocar, mas em tudo o que se consegue sentir. Para mim, então, esse é o maior encanto desse mundo envolvente, o mundo literário. A facilidade para nos propor uma reflexão, ainda que de maneira implícita. A capacidade quase inacreditável de nos aproximar de sentimentos, muitos deles desconhecidos até então.

Sou, certamente, uma grande fã desse mundo tão mágico no qual permito-me viajar diariamente. Pareço voar bem alto dentro da minha própria imaginação, conhecendo cada cantinho do universo através das sensações de um personagem. As cores, formas, sons, aromas e sabores. Gosto de aproveitar os pensamentos, sentimentos, aprendizados e tudo mais que uma boa história nos possibilita encontrar. Me perco, inclusive, nas emoções distribuídas entre as linhas. Posso vibrar internamente com o final apaixonado e feliz dos protagonistas, e, claro, jamais me faltam lágrimas quando os finais não são tão felizes assim. Torço para que os bons planos funcionem, sinto as batidas mais fortes do coração a cada surpresa boa ou ruim. Às vezes sigo os conselhos deixados ali, e não posso evitar pensar em como seria bom se eles pudessem seguir os meus também. Dialogo mentalmente com os que fazem parte da história e, às vezes, alguns deles se tornam meus grandes amigos. Sim, amigos literários, por que não? Sem falar naqueles por quem eu me apaixono, desapaixono, sofro como se fossem um pedaço de mim. E sabe, acho que é isso mesmo. Acho que os livros favoritos de uma pessoa, as histórias que ela pode ler e reler incansavelmente até decorar cada frase e ainda assim não querer parar, são realmente parte dela. Para sempre.

Viajo pelas ruas desse mundo onde meu único transporte é a imaginação, e o combustível, as palavras. Encontro na leitura não apenas um escape do cotidiano, mas uma maneira de fazer com que ele se torne menos rotineiro e muito mais cheio de cor. Os livros nos trazem esperança, motivação, conhecimento, ou apenas uma prévia das incontáveis histórias fictícias que, algum dia, podem vir a fazer alguma diferença em nossa história real. E, principalmente, possuem uma semelhança com todo ser humano, uma característica de nós mesmos que muitas vezes deixamos que passe despercebida. Mas ela está ali, imutável. Afinal, se o melhor que uma história pode nos dar está nos sentimentos transmitidos e despertados por ela, o melhor que podemos dar ao mundo está, justamente, nos bons sentimentos que conseguimos transmitir e despertar, uns aos outros.

Você Lembra?

Ei, você aí. Você que chegou esses dias, mês passado, em épocas mais antigas, no começo ou quem sabe no fim do ano anterior. Você que a vida levou para longe sem avisar se traria de volta, ou deixando no lugar o eterno gostinho de nostalgia, o convicto não. Aqueles de quem eu sinto saudade, possuo um medo exagerado de perder, ou apenas sei que é melhor que fiquem lá, no passado. Você que as circunstâncias ainda parecem querer afastar, mas não podem. Não conseguem. Você que por qualquer motivo, eu tive que deixar partir; que ficou por um momento, uma curta ou longa temporada, ou que independente da maneira, eu sei, permanecerá aqui. Sempre. Sobretudo, falo de você que do seu jeito, sem jeito, sem nem se quer fazer ideia de como ou do quanto, marcou. Muito. Talvez eu não consiga dizer, demonstrar, explicar. Mas saiba, por favor, que eu me lembro de você. De cada um de vocês. E me pergunto, então, será que você lembra?

Você pode não se lembrar de todos os meus vícios. Minha necessidade constante de chocolate, minha fixação por datas e a importância que vejo em comemorá-las, minha paixão por livros e a maneira com que me apego a cada personagem. É provável que não vá se lembrar da minha impaciência matinal ou do tamanho do meu sono, no mesmo período. Tudo bem. Eu me pergunto, no entanto, se você lembra de nós. Não do que eu sou, mas do que nós somos ou já fomos capazes de ser, juntos. De tudo o que vivemos, durante qualquer que seja a relação que tivemos. Me pergunto, por exemplo, se você lembra dos planos. Sim, todos eles. Aqueles tão insanos como trocar o shampoo de alguém por creme dental, abrir uma escola, fazer as rampas do shopping de escorregador, esbarrar na geladeira da cozinha até ela chegar ao quarto. Planos aparentemente sem qualquer sentido, mas cheios de sentido para nós. Há, ainda, aqueles mais comuns. Como os lugares que possivelmente frequentaríamos, as experiências a trocar, o muito a aprender e ensinar, um ao outro. Nossas invenções mais loucas e estranhas, porém nossas, tão nossas. Um caminhão de chocolate personalizado, a fama vinda dos nossos shows imaginários, o encontro das nossas futuras profissões tão distintas, só para que pudéssemos permanecer próximos. Todos os nossos sonhos, desde os mais simples aos mais complexos. Viagens, festas, ou uma tarde tranquila em casa onde a companhia de um certo alguém é tudo o que se tem e muito mais do que se deseja. Os tão esperados primeiros encontros, a ânsia por infinitos reencontros. A promessa tão única e frágil colocada em um “para sempre”. Planos, invenções, sonhos. Tantos já se realizaram, outros continuamos buscando realizar, e alguns, inevitavelmente, ficarão aqui. Somente aqui, dentro de nós. E então, será que você lembra?

Questiono-me, às vezes, se assim como eu, você consegue se lembrar tão nitidamente de tudo aquilo que compartilhamos. As músicas trocadas apenas pela existência de gostos semelhantes ou, quem sabe, por descreverem bem nosso momento, sentimento. As refeições divididas, onde o melhor sabor era, certamente, a alegria daquela companhia. As manhãs, tardes e madrugadas repletas de conversas sobre nada e tudo. Gargalhadas sem fim, do tipo que fazem a barriga doer, abraços apertados que foram, inúmeras vezes, nosso maior refúgio. Quando dissemos a mesma coisa juntos, sem combinação; nos deciframos através de um toque ou um suspiro, quando sorrimos ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo. Segredos confiados um ao outro, palavras doces ditas repetidamente e, claro, aquelas exclusivamente nossas. Criamos, adaptamos, e só nós sabemos o significado. Pequenos instantes, como quando brincamos de voltar a ser criança em uma loja de brinquedos, semelhante aquela outra vez, na infância, quando resolvemos brincar de ser gente grande em uma loja de roupas. Nossos desastres na cozinha e fora dela, uma e outra crise de lágrimas, risos, mal humor. Os livros lidos juntos, as histórias contadas entre nós, e também as escritas por nós mesmos. Não só aquelas anotadas em um papel mas, principalmente, as que escrevemos diariamente, na vida real.

Sim, eu lembro. Lembro de tudo isso, e muito mais. Lembro de você. Você que fez parte de pelo menos uma entre todas essas lembranças registradas, e tantas outras guardadas em mim. Alguns de vocês que eu sei que identificarão uma parte de nós aqui, outros que, talvez, não consigam mais fazer isso. Você que, a sua maneira, ainda que não se lembre ou não saiba, me ajudou a construir cada um desses pedaços. Pedaços que compõe, hoje, muito de tudo o que eu sou.